Teatro e primeira infância- entrevista El Mundo por Ignacio Amestoy

Entrevista de Carlos Laredo, por Ignacio Amestoy para o jornal El Mundo. Fala de sua trajetória artística, La Casa Incierta e do teatro para a primeira infância.

 Entrevista de Carlos Laredo- El Mundo

Por Ignacio Amestoy

El Mentidero/Carlos Laredo

Fundador e diretor de La Casa Incierta

Os bebês nascem poetas

Agora, no Natal, volta ao Fernán Gomez o teatro para bebês. Até 13 de março vão ser representadas cinco obras diferentes. A primeira é “Pupila d´água”. É o décimo ano que o Centro de Colón acolhe uma experiência que já é um fenômeno mundial.

 Pergunta– O bebê, como você diz, é o espectador ideal?

Resposta- Sim, é como o coro antigo, forma parte da poética cênica.

P.- Certamente, o que sua companhia La Casa Incierta faz com o teatro para bebês, se não se vê, não se crê. As crianças ficam extasiadas.

R.- Mais que ficar fora de si, elas estão dentro do drama, nadam na mesma piscina do intérprete.

P.-Durante meia hora, os bebês penetram em outro mundo. Que mundo?

R.- Cheios de espírito, qualquer mundo é possível e todos estamos lavrados pela água, pelo ar, pela terra, pelo fogo…

P.-Vi pais ficarem atônitos diante do assombro de seus filhos.

R.- Saem da sombra ao assombro.

P.- Os pais acompanham seus filhos neste rito iniciático.

R.- Mas não sabem que os que vão ser iniciados são os próprios pais. É muito belo que tua filha te leve pela mão até o que desconheces. Nossos filhos são geneticamente mais velhos e conhecem melhor o caminho.

P.- E fora do teatro ficam os medos.

R.- Alguns adultos se aferram a seus medos e a suas certezas acreditando que são sua identidade.

P.- Neste rito, a liturgia é criada pelas crianças. Não se pretende impor-lhes nada.

R.- Os dogmas de fé são patrimônio das religiões. A fé no impossível é patrimônio dos poetas. Os bebês nascem poetas.

P.- As crianças forjam seu universo, enquanto o descobrem.

R.- A espécie mais inteligente do reino animal é a mais dependente ao nascer.

P.-10 anos, 1400 apresentações na Espanha e fora da Espanha. Com linguagem universal.

R.- O público que vem nos ver é infinito e cada bebê é diferente.

P.- De Pupila d´água, com dramaturgia e direção suas, 600 apresentações, nas quais foi intérprete sua mulher, Clarice Cardell.

R.- Clarice esteve em todos nossos espetáculos. Sem ela, este percurso não teria sido possível.

P.- Suas atrizes e atores são como sacerdotisas e sacerdotes, mas os ritos são xamânicos, válidos no Brasil, Australia ou Espanha, aqui em Madri.

R.- As bruxas de muitos contos eram as que ajudavam as crianças e os adultos a crescer. Defendo as sacerdotisas como Medeia.

P.- Parece algo telúrica a união dos bebês com o mágico. É outro universo.

R.- Os minerais que há em todo corpo acumulam e liberam memória e energia. Igualmente à energia telúrica da terra. Mais que magia é geofísica.

P.- Vocês estão forjando um novo tipo de espectador.

R.- Seria suficiente se acreditássemos que todo bebê nasce poeta e que todo adulto nasceu bebê.

P.- Despertar a curiosidade parece sua máxima.

R.- A curiosidade da criança é infinita até o ponto de explorar pondo em risco sua vida. Minha máxima é : Que nós a preservemos!

P.- Curiosidade…e prazer. Parece que diminuem com os anos! Segundo o informe PISA, na Espanha só o 60% dos estudantes lêem por prazer.

R.- Quando os erros são castigados, os prazeres se convertem em obrigação. Não pensamos em castigar a criança que cai tentando andar ou a que balbucia ao falar. Chegamos a acreditar que domesticar e educar são a mesma coisa.

P.- Estes atrevidos bebês logo se encontram com nossa televisão lixo…

R.- O mundo está cheio de lixo e eles vieram para limpá-lo.

P.- Você, com uma longa experiência no teatro, depois de estudar Direito e Arquitetura, foi um dos impulsores do teatro alternativo em Madri, antes de passar por Avignon e Paris, e ser diretor técnico do Festival de Otoño.

R.- Minha passagem pela Universidade foi na ponta dos pés. A Sala Triângulo foi minha primeira escola de Teatro. No Festival de Otoño virei adulto.

P.- Mas derivou para os mais jovens… Foi fundador e diretor de Teatralia, o festival mais importante de teatro infantil e juvenil na Espanha.

R.- Teatralia foi muito mais do que eu nunca poderia ter chegado a imaginar, mas menos do que eu poderia sonhar.

P.- Um dia deixou Teatralia para criar La Casa Incierta. O que é essa casa?

R.- O que se podia sonhar e levar numa caixa de papelão.

P.- O incerto em um mundo que pugna pelo certo.

R.- O certo é como a mentira, espera que algum dia a desmintam. O incerto é como a vida: fértil.

P.- Não pára de dar cursos, principalmente fora de Espanha. Agora, com o projeto da Comunidade Européia, Grundtvig, que se desenvolve na Alemanha, Finlândia, França, a Martinica francesa e Espanha. Para educar os adultos.

R.- Os filhos educam seus pais. Nós tentamos pôr entre ambos a aventura artística, colocando a estética entre pais e bebês.

P.- E não só predica, dá trigo. No segundo espetáculo de Natal, O Circo Incerto, sobe no palco com sua mulher, com quem teve dois filhos, Gabriela e Andrés, de 9 e 6 anos, que também estão nisto.

R.- Semeamos o trigo e o cultivamos em família. É o grande privilégio que tenho, atuando para o melhor público e com o melhor elenco.

P.- E te apaixona escrever… Um belo “poemário teatral em um ato”, o de seu espetáculo Se tu não tivesses nascido.

R.- Isso me acontece por ter filhos.

P.- No poema deste mesmo título, Se tu não tivesses nascido… este final: “ não te teria podido sonhar nas minhas horas de insônia”

R.- Os pais e as mães sabem do que falo. Não digamos os avós. Não é o mesmo ser filho de que pais de. Transforma a existência.

P.- Enfim, seu “Rompiendo el Cascarón” transbordou todas as fronteiras.

R.- As fronteiras mais difíceis são as que trazemos na frente, dentro de nossa cabeça.

P.– Você permanece fiel ao Centro de Colón!

R.- O Centro de Artes Fernán Gomez apostou com firmeza por nosso projeto e aspiramos estar diariamente à altura dessa confiança.

P.- Me dá a sensação de que você é muito fiel em tudo.

R.- Tenho fé no incerto.

Entrevista de Ignacio Amestoy 19_12_2010 _El mundo

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