Reflexões sobre a estética e a primeira infância por Carlos Laredo

Artigo de Carlos Laredo. Reflexões em voz alta sobre a estética e a primeira infância.

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Reflexões em voz alta sobre a estética e a primeira infância.

 Diariamente, recebemos em nossos espetáculos, pais com filhos de 0 a 3 anos, que vão esmiuçando sua visão mais ou menos profunda sobre a primeira infância. Trata-se de um espaço de observação social e pública singular, onde se põe de manifesto uma enorme quantidade de informação sobre como se relacionam os pais com seus filhos recém-nascidos. Hoje em dia, a Cultura continua fortemente vetada às crianças recém-nascidas e por extensão a seus pais. Durante estes três anos, os pais não encontram atividades destinadas especificamente à relação intensa, que mantêm com seus filhos, atividades destinadas a cultivar essa relação única, maravilhosa e irrepetível.

Ao longo dos últimos 12 anos, observamos o enorme potencial destas experiências cênicas para o desenvolvimento não só dos bebês, mas também dos adultos que os acompanham em silêncio. Iniciar-se na arte do Teatro através do encontro entre diferentes gerações permite entrar na Cultura de uma outra maneira.

Deixemos de lado o entre-tenimento (que é como ter algo entre…), o passar do tempo ou matar o tempo, para entrar em cheio no cultivo das sementes do tempo. Ainda hoje, não deixamos de ver a infância desde o prisma de suas carências, das necessidades detectadas em relação a um modelo pré-determinado e do que acreditamos poder oferecer sentados no paradigma de um mundo supostamente superior: o do adulto. Simplificamos as capacidades dos recém- nascidos, projetando- lhes em uma tábula rasa, que deverá ser preenchida de conhecimentos, afetos, preceitos e conceitos mediante a passagem por uma série de etapas previstas. Adulto que se coloca a si mesmo como modelo a alcançar e à infância, como carência a resolver. Essas faculdades, mensuráveis numa escala em que o bebê se encontra em 0 e o adulto representa o pleno desenvolvimento, deixam uma brecha dificilmente eludível pelos indivíduos, que se convertem um dia em progenitores, ou por professores que formam parte do modelo educacional vigente atualmente.

De uma forma muito estereotipada e muito longínqua de toda exploração científica, chegamos a acreditar que os recém- nascidos são uma página em branco, que não entendem nada, que não são capazes de expressar o que lhes ocorre, com os quais somente podemos nos comunicar através de uma magma sensorial abstrato. Vemos a primeira infância como uma etapa onde o ser humano está completamente deficiente para toda experiência, incluída a experiência artística. Nossa frustração por não entender o que os bebês nos querem comunicar nos levou a chamá-los imediatamente infantes: os que não têm uso da palavra.

Então, deveríamos perguntar-nos: se os bebês não dominam a linguagem, e por isso os nomeamos com tal definição, então por que os bebês revelam todo o caminho da linguagem, de tal forma que são capazes de falar um ou vários idiomas num tempo muito menor que o do adulto, e de maneira muito mais perfeita?

Por que coincide no tempo o surgimento dos dentes, com o momento de começar a caminhar, com começar a ingerir os alimentos da terra e com o nascimento ao mesmo tempo da linguagem?

Por que os bebês falam e fazem a recopilação de um vocabulário extenso em muito pouco tempo?

Por que são capazes de aprender um idioma como jamais seremos capazes de aprendê-lo na idade adulta? O que chamamos de língua materna?

Porém, além desta capacidade relacionada com as habilidades da linguagem, o que os neurolinguistas apontam há muito tempo como uma qualidade endógena de todo ser humano, que lhe permite falar todos os idiomas da humanidade quando nasce, encontra-se o ambiente e todos os estímulos exógenos que interferem na hora de revelar um ou outro idioma. Ao longo desses primeiros anos de vida, faz-se vibrar o ar de uma forma diferente para cada ambiente.

Mas para adentrar-nos um pouco mais na linguagem e para poder observá-lo de um ponto de vista mais amplo, que o da sintaxes e o da semântica, seria necessário se perder um pouco na desconstrução sonora, na criação de palavras/gestos, que separa a boca do bebê do ouvido do adulto e vice-versa. A configuração das sonoridades constituintes da linguagem, desde a pronuncia de cada letra e de todos os seus matizes sensíveis e emocionais, não deixa de ser uma engrenagem imprescindível no ato intencional de cada comunicação, na própria gênesis da linguagem e na própria configuração dos sotaques de cada idioma de cada região. Os sons das letras buscam a configuração das palavras na sua qualidade rítmica, no lugar que ocupam na respiração ou na ressonância do corpo. Se o som de cada letra fosse um gesto, a linguagem seria uma dança complexa da língua na sua caverna sonora, que é a boca. Essas respirações, posições da língua e movimentos estão plenamente unidas à personalidade expressiva de cada indivíduo. Sua necessidade de se comunicar está intimamente ligada a isso que se denomina instinto de sobrevivência.

Do ponto de vista da experiência estética, as crianças recém- nascidas compartilham uma linguagem complexa de comunicação e percepção das intensões do outro e criam ao mesmo tempo novas formas de expressão verbal, sonora e gestual, para transmitir ao outro a urgência da necessidade do alimento, do sono ou de amor. O alimento de um olhar, de um gesto, de uma carícia, de um abraço, de uma emoção, não é só para que o corpo sobreviva, mas também para fazer vibrar a alma. E imaginem se os recém- nascidos não sabem fazer vibrar a energia de seus pequenos corpos!

Considerando-se que nem todos os órgãos de um bebê crescem ao longo de seu desenvolvimento como seus olhos, caberia a pergunta se deveríamos considerar a alma do bebê menor que a do adulto. Se é absurdo falar de tamanho de algo intangível e dificilmente descritível, por que situar a capacidade espiritual do que nasce em outra categoria diferente? Talvez por isso chegamos a ouvir muitos pais chamarem seus filhos de “bichinhos”, numa mistura de ternura e barbárie, em que a aparição da alma humana só se associaria com o entendimento argumental da linguagem narrativa, ou seja, com a capacidade da criança de falar no mesmo idioma que o dos adultos.

Aqueles, que não confiam na capacidade de entendimento do ser humano quando nasce, fazem-no sem observar que o bebê capta tudo, compreende tudo, inclusive aquilo que não entende. Assim observamos que, em muito pouco tempo, surgem perguntas existenciais na criança de grande importância filosófica ou observações de detalhes mínimos que, como adultos, não teríamos sido capazes de perceber.

Nossa experiência nos demonstrou que os bebês nascem plenamente preparados para a experiência estética, trazendo consigo toda a capacidade para entrar no templo da contemplação. Como espectadores detêm todo o potencial da humanidade, toda a riqueza sensitiva, emocional e intelectual, porque na realidade não são os “pequenos” da casa, e sim os mais avançados, os mais velhos, já que portam no seu DNA um cruzamento genético a mais que o de seus pais. E isso já é muito! Caberia perguntar se não tem nenhum valor a semente que cai da árvore centenária ou se toda a memória do tempo da árvore está guardada dentro da semente que inicia um novo caminho? Essa passagem pelo inicio da vida a partir do cultivo serve para tecer o tempo sem arrancar as raízes e sem abandonar nossas origens. Permite diluir as fronteiras convencionais do tempo linear como passado, presente e futuro e proporciona ao tempo toda a sua dimensão quântica, sua dimensão complexa, em uma configuração geométrica e holográfica diferente.

Com as estruturas arquetípicas herdadas, os recém-nascidos participam da vida do símbolo dentro do mito e dentro da poética. Vivem na poética. Nas creches, podemos observá-los recriando o sentido profundo dos antigos mitos como o de Sísifo, o de Narciso ou o de Deucalião para citar alguns exemplos. Se fossemos capazes de dar liberdade sem travas à tremenda velocidade do desenvolvimento neuronal dos bebês, criando novas sinapses, poderíamos facilitar a evolução do uso e exploração das novas áreas do cérebro. Despertar as memórias herdadas num ambiente novo situaria o potencial de evolução do ser humano em outra linha de saída. E consequentemente em outros parâmetros educativos, artísticos, culturais, sociais e políticos.

Os bebês são capazes de se aventurar como exploradores e viver sem travas nem medos tudo aquilo que é novo ou que eles não são capazes de entender. À medida que fomos desprezando os seres humanos quando nascem e criando modelos de filhos para que sejam o mais parecidos com seus pais, fomos travando o potencial com que nascemos. Chegamos a acreditar que a razão pode tudo, e que tudo o que escapa ao entendimento e à nossa capacidade de consciência, ou não forma parte da realidade ou nos resulta ilegível, não existe. Por esse caminho, encontramos adultos moribundos por inanição cultural, incapazes de se expressar emocionalmente, sensitivamente ou incapazes de disparar seus neurônios para lugares desconhecidos. Os recém-nascidos têm – entre outras muitas coisas – a responsabilidade de transformar seus pais para que amem o desconhecido, para que se aventurem de novo no jogo da vida, sempre que os pais se deixem transformar.

A arte é a aventura da memória, onde se transforma a expressão de cada ser, seja qual for sua idade ou experiência. É um encontro potenciador, disparador do dinamismo estético do ser. Vencer os medos é possível, e só o que tem medo é valente para transpassar as fronteiras que desconhecemos e às que não sabemos nomear. A humanidade não galopa graças às respostas binárias, às doutrinas ou à velha lei de Talião. Fazemos com o mesmo impulso terrível e maravilhoso do nascimento, com toda sua incerteza e dramaticidade. Quando começamos a caminhar não poderíamos nos levantar de novo se cada queda fosse acompanhada de um sentimento paralisador de frustração e impotência.

Este sentimento que nunca pudemos observar em alguém que aprende a caminhar em sua mais tenra infância, aquele que nunca desiste, nem se queixa de suas próprias feridas depois de cada fracasso, aparece de forma recorrente na vida adulta.

Todo ser humano evoca a memória de antigos heróis míticos, aqueles que nos transmitiram a obstinada missão de nascer, aqueles que renderam tributo ao céu alçando sua abóbada cranial e conseguiram caminhar, correr e dançar, aqueles que modelaram os primeiros balbucios no ar, liberando as mãos para a dança dos poemas e cantos primigênios da linguagem. Heróis da palavra, do pensamento e da criação. Antigos heróis que voltam a nos deleitar com suas danças nas creches ou nos parques onde brincam. Espalhar rastros de respeito pelos que nascem é uma forma de renovar a humanidade em sua transformação de modelos sociais através da Cultura.

Fala-se que é necessário ensinar às crianças o que elas não têm, o que padecem, mas não se diz que na aprendizagem, pode-se chegar a ser mais importante revelar o que já está escrito no livro genético da criança. Articular um discurso sobre a estética para a primeira infância poderia nos fazer cair no erro de tratar de definir uma série de estéticas aptas ou não aptas para a qualidade infinita com que nasce o ser humano. E talvez os encontros se produzam numa escala além do artista e do recém-nascido.

Toda experiência estética é em si mesma uma viagem pedagógica, mas do ponto de vista da pedagogia do desconhecido. A arte é um disparate que nos impulsa na aventura do desconhecido, é o diálogo com o oculto, com o mistério. Revelar, explicar ou transmitir de uma forma didática é uma forma pouco sutil de profanar. Da mesma forma que se profana uma piada se tentamos explicá-la antes de que o disparate nos faça rir. Talvez, todo ato de Arte para bebês seja um ato de amor e de respeito ao que se atreveu a nascer em um mundo desconhecido. Nascer hoje em dia é em si mesmo um ato heróico.

Se na vida cotidiana ou na educação, a idade pode significar um grau de aptidão ou de inaptidão de uma pessoa em virtude do seu grau de maturidade, de crescimento ou de desenvolvimento, no teatro estes parâmetros não têm por que ter o mesmo grau de validade. Se víssemos o crescimento do ser humano do ponto de vista da acumulação de travas ao longo do tempo, da perda de flexibilidade tanto física como mental, veríamos que os adultos que acumularam mais bloqueios são os que têm mais dificuldades para expressar suas emoções, para se comunicar ou se maravilhar com o que acontece, para despertar sua curiosidade, ou simplesmente para poder estar concentrados ou relaxados. Os espectadores adultos podem chegar a conviver com verdadeiros problemas de inibição sensitiva ou intelectual na vida profissional e familiar, e entretanto, não colocamos em dúvida suas aptidões como espectadores potenciais, porque somos capazes de classificá-los com uma etiqueta ou lhes facilitar uma historieta explicativa desta obra ou de outra.

Para ser espectador de teatro, a idade não é sinônimo de sensibilidade, nem de capacidade para a maravilha nem de capacidade estética, nem de aptidão sensorial ou emocional. Em todos estes aspectos, os bebês são muito mais aptos para a aventura artística, que os adultos que os acompanham, muito mais aptos para ver o que os adultos deixam de ver ou perceber. Para sentir e vibrar com a energia de seu ambiente, um bebê está plenamente capacitado tanto pelas suas faculdades sensoriais como pela sua qualidade de viver completamente no “ aqui e agora”.

Os recém-nascidos moram na sua quotidianidade dentro da metáfora, na catársis, na mimésis, na invocação poética e lírica, e na expressão dramática (tanto a trágica como a cômica). Vivem na estética e no sonho da memória; e tudo isso forma parte do rito teatral ou cênico. Fazê-los participantes da aventura estética é uma forma de reconhecimento através do renascimento cênico. Isto é, tudo o que atraía os espectadores do coro grego, quando assistiam ao rito do teatro ou do ditirambo há mais de 2.000- 2.500 anos, é o mesmo que convoca o bebê para ser parte do drama, para estar dentro do Coro.

As crianças a partir de 4 ou 5 anos vão tendo uma maior necessidade de repetir os caminhos conhecidos, os labirintos superados e as narrativas com estruturas aristotélicas. Demandam ou esperam o conto como estrutura que lhes ajudem a consolidar sua personalidade ou a vencer seus medos. Podem chegar a acreditar que seus gostos já se formaram e podem se fazer muito conservadores, quanto a querer ver a peça que já viram, o conto ou o filme que já conhecem. É muito comum que o entorno reforce estes aspectos em detrimento da capacidade poética que possuem. O estudo e a convivência com a primeira infância contribuem de forma eficaz no encontro do espectador bebê com o intérprete, com a estética e com a dramaturgia de uma obra.

É mais importante que a obra artística emane dos bebês e de seu olhar original, do que ela se destine aos próprios bebês. É uma forma de falar algo que concerna aos bebês porque entra no seu ambiente de comunicação cotidiana com um entorno adulto e de sua condição arquetípica e mitológica. Os recém- nascidos possuem a capacidade de viver o essencial e de formar parte de um plano energético diferenciado, talvez sagrado, num momento precioso em que a vida é uma aventura em si mesma.

Talvez a revolução do futuro só necessite que modifiquemos nossa forma de olhar o potencial com que nascem os seres humanos, para começar a acreditar que todo recém-nascido é poeta.

http://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0/deed.es

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