Infância, teatro, sociedade- Revista espanhola Primero Acto

Sinopse do Texto-

Artigo de Carlos Laredo para a revista espanhola “Primeiro Ato”. O artigo fala de temas como a arte, a primeira infância, o teatro e nossa sociedade atual.

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 INFÂNCIA, TEATRO, SOCIEDADE

Conheci a um menino que queria ver o mundo do alto, para saber se quando crescesse sentiria vertigem. O menino subia nas cadeiras, nas escadas, nos ramos mais altos, nas montanhas… E cada vez subia mais alto, queria se sentir maior e grande. Mas quando subia, tudo a sua volta se fazia paulatinamente menor. Acabava de alcançar o cume, e o mundo se transformava em uma escala cada vez mais ínfima, até desaparecer de sua vista. Só lhe interessavam os cumes mais altos. Até que um dia, tendo saciado sua sede de grandeza, voltava apressado para casa. A arrogância e o sentimento de superioridade cegaram sua percepção do perigo, e na descida da montanha, um acidente quase acaba com sua vida. As operações cirúrgicas para salvá-lo deram lugar a muitos anos de convalescênça e reflexão. Hoje seus cumes estão no infinitamente pequeno.

Há na nossa forma de olhar o pequeno, de olhar os pequenos, uma associação quase automática, que só se explica se consideramos que os que têm um tamanho inferior são hierárquica e globalmente inferiores em relação aos que alcançaram seu pleno desenvolvimento físico e intelectual. Grande parte da análise do desenvolvimento psicológico evolutivo da criança, que se fez ao longo do século XX, estava sustentado num modelo comparativo, que media a criança por suas carências, em relação a um modelo baseado no adulto médio. Como se o adulto não tivesse acumulado travas ao longo de sua vida. Entretanto, as investigações científicas, levadas a cabo ao longo dos últimos dez anos, lançaram uma nova luz e uma perspectiva completamente diferente sobre as capacidades reais com que nascemos. Estas mudanças nos estão levando a corrigir erros científicos, ainda que não tenham se refletido em uma mudança real do modelo social, cultural e educativo vigentes. As novas fronteiras do conhecimento nos ajudam a entender melhor uma parte essencial da gênesis da humanidade e a pensar melhor o potencial evolutivo, que temos pela frente como espécie. A memória acumulada ao longo de milhões de anos converge na genética, e em outros elementos e aspectos que formam a matéria fenomenológica da que estamos feitos. Ao colocar em primeiro plano a perspectiva global evolutiva, talvez possamos modificar com grande velocidade os pontos de vista que, das alturas, temos fixados sobre a infância.

Desde que nasce o ser humano, se potencializa a indústria química com o medo. Em muitos partos, vemos como se neutraliza e se substitui a capacidade, a sabedoria milenar e a responsabilidade do binômio mãe-bebê, por uma assistência mais cômoda e previsível, mais segura e principalmente mais rentável para a equipe médica. Apesar dos tímidos movimentos que tentam sensibilizar a população neste aspecto, vemos como aumentam o partos programados, nos que se anestesia a relação da mãe com o bebê, sem que se tenho feito um estudo ou um cálculo das graves consequências que produzem tais medidas na sociedade. Nas creches, os educadores percebem como aumentam ano a ano o número de crianças, frutos de partos programados, e notam suas consequências no atraso do desenvolvimento, nas condutas apreensivas e desconfiadas das crianças.

Ao longo dos últimos dez anos, com a criação e programação de obras cênicas dirigidas à primeira infância, pudemos observar uma e outra vez que o modo como nascem as crianças influi no seu comportamento em um lugar público como é o Teatro. Para nós, é habitual ver como os bebês nascidos de cesáreas desnecessárias ( programadas, por interesse ou excesso de prevenção) se remexem nos braços e saem engatinhando ou correndo do colo de seus pais. Como se suas reações bioquímicas tivessem ficado ancoradas pelos impulsos das contrações do momento da expulsão, e a cada “contração” a criança saísse correndo para a luz, para a saída. Bebês expulsados de seu próprio nascimento, do caminho de sua própria espiral e, frequentemente, diagnosticados e medicados como “hiperativos”. Neste espaço escuro e lumínico do cenário, tudo isto se acentua de forma dramática, porque além do mais, a criança não pode entrar no espaço cênico por onde estaria sua saída.

Em nosso afã por ensinar, os adultos mostramos com o dedo indicador a nossos filhos os cumes, que devem alcançar indiscutivelmente. Das altas Cátedras, se olha com indiferença as ínfimas e pequenas creches. Da Educação Superior se vê pequena e irrelevante a Educação Inferior. O pequeno parece limitado, inerme e vazio. Como se a educação fosse uma escada unidirecional até o mais alto, sem ter como meta a origem da Humanidade: sua infância.

Das alturas dos organismos oficiais do pensamento, como a R.A.E da língua espanhola, são definidos os conceitos essenciais como: o entendimento, o uso da razão, o infante, a compreensão, a consideração, a alma, etc… a partir de um jogo de espelhos que afastam frequentemente as palavras de seu significado original e cujas definições excluem as capacidades das crianças. Vejam, por exemplo, a definição de “uso da razão” como “ posse do natural discernimento, que se adquire passada a primeira infância…

É habitual ouvir dos adultos, quando duvidam das capacidades das crianças por “entender” algo. Não obstante, como diz o próprio dicionário RAE, “entender” é uma tarefa impossível para qualquer ser humano, porque se realmente se trata de “Ter uma ideia clara sobre as coisas” ou “Saber algo com perfeição” e define “algo” como “tudo o que tem entidade, seja corporal ou espiritual, natural ou artificial, real ou abstrata”, e sabendo que nossa percepção é limitada com respeito à matéria que se pode dividir de forma ilimitada (até o infinitamente pequeno), é provável que não entendamos nada com perfeição. Principalmente porque há muita informação que nos escapa, por mais desenvolvida que esteja nossa sensibilidade.

Essa definição contrasta com o significado original, em que entender queria dizer “tender e trançar as cordas de dentro”, como se “pensar” ( sua raiz tem o mesmo significado que entender) fosse trançar fazendo sinapses entre os dois hemisférios do cérebro, mas com três cordas. A trança não serve para tratar de alcançar o inalcançável, porque é infinita para os dois lados.

A própria etimologia da palavra “infans” guarda esse desprezo injusto “aos que não tem uso da palavra”, mesmo que não tenhamos conhecido ainda nenhum adulto capaz de falar um língua materna, depois de chegada a idade adulta.

Para a Justiça, as crianças só tem voz, ou se lhes pede testemunho ou opinião, quando já tenham cumprido os 12 anos. Antes, são apenas um objeto passivo que devem ser protegidos com direitos, mas sem dar responsabilidade e obrigações diretas à sociedade respeito a estes direitos.

Apesar de que o direito à Cultura esteja reconhecido pela Constituição, sem discriminação justificável por razão de idade, desde os Museus, Teatros, e Auditórios Oficiais e de Cultura Pública, os menores de 4 anos são uma parte marginal do público. Quando não se programa nada para eles (que é o habitual), são proibidos explicitamente da entrada, ou são desprezados com uma entrada sem preço, ou seus horários são incompatíveis com a vida das crianças. Os investimentos públicos em matéria de cultura são desproporcionais por pequenos em relação à quantidade de crianças e jovens que há na população. E muitos artistas que marcam a pauta da Cultura Oficial vêm às crianças como fonte primitiva do ruído, da sujeira, da irracionalidade, da incapacidade intelectual ou da barbárie selvagem. Falla, H. Lanz e Lorca preparavam juntos obras para crianças a princípios do século XX. Seu exemplo não rendeu frutos nos Centros Dramáticos Espanhóis ou nos Teatros e Auditórios que levam seu nome e de suas obras. Sua gestão pública exclui uma parte do público. Ninguém grita ante o descumprimento flagrante das leis vigentes. Os funcionários da Cultura vêm abrindo há anos pequenos gabinetes pedagógicos ou didáticos para suas atividades destinadas às crianças, com poucos recursos, onde convive uma inexistente ambição artística com a necessidade de cobrir o expediente escolar. E se classifica como Arte um pequeno curral didático de datas, dados, categorias e definições tanatográficas (biografias de mortos), que o afastam de sua origem e de seu processo, que os afastam de sua própria infância. Em muitos destes espaços públicos se utiliza o público cativo escolar ou o público familiar para maquiar os nefastos resultados de assistência real do público adulto. Instrumentalizam a programação infantil como programação de recheio, a serviço de um catálogo que vale mais por seu peso quantitativo que pelo desenvolvimento responsável do cultivo de seu conteúdo. Sirvam como contraste todas as honrosas exceções.

Podemos servir às crianças pratos cheios de entretenimento para que aprendam a consumir, a matar o tempo. Em nome da Cultura lhes servimos pratos toscos de ócio onde as estéticas estejam bem ancoradas (e se possível de forma estridente) exageradamente nas cores básicas, nas notas musicais básicas, nas repetições básicas, nas palavras reduzidas de significado único e básico, nas didáticas básicas, nos conteúdos básicos, nas lições de moral básicas… E o básico entendido como sinônimo de reduzido, negativamente pequeno. Para que a criança tenha a ilusão de dominar esse espaço reduzido, sem que importe muito quanto podemos ofender sua curiosidade.

Os artistas que mancham suas mãos com tais espectadores formam parte da terceira divisão da Cultura, e sua ressonância não transcende ao âmbito local ou regional. De feira em feira, buscam a sobrevivência, trabalhando grátis em troca da promessa de trabalhar, ou quando trabalham, financiando os créditos das prefeituras, que especulam durante meses ou anos com suas dívidas de modo delitivo, nos fazendo cúmplices de uma situação injusta (por enganosa), pobre, ignorante e cega chamada “mercado”.

Todo artista que se considere Artista sabe que para abordar qualquer nova obra deve voltar à infância de sua própria linguagem. Entende-se que o Teatro para Crianças é como um gênero em si mesmo, como uma categoria que o separa do Teatro em geral. Como se o fato de estar dirigido a um público de uma determinada idade determinasse indubitavelmente o limite de seu potencial artístico e como se as fronteiras de seu âmbito estético estivessem fechadas peremptoriamente. Assim, muitas criações de artistas que trabalham para o público adulto não são cogitadas em ser apresentadas para crianças, porque lhes supõe uma degradação, uma descida ao níveis mais baixos, uma descida aos níveis menores e insignificantes. Que as excepções nos sirvam para pensar que talvez nos equivoquemos.

Um ator que tinha trabalhado muitos anos na Comédie Française e que atuava em um espetáculo para bebês dizia recentemente que trabalhar em espaços reduzidos o fez voltar a pensar toda sua forma de fazer Teatro, e que já não poderia voltar a subir no palco, cheio de máscaras, truques e enganos que o ajudavam a se afastar de si mesmo. Reconhecia que o cume mais alto pode ser o menor. Toda sociedade se renova através das gerações recém-nascidas, através do culto ao latente, como toda Cultura deveria se renovar através de sua infância.

Aceitemos, mesmo que seja só por um instante, o valor de uma pequena semente que cai da árvore centenária, porque além de portar toda a memória da vida da árvore e de seus antepassados, carregará uma singularidade a respeito de seu progenitor: o último salto ao vazio, o último fracasso ou ruptura, a ponta de lança que abre esse parêntesis de espaço e tempo que chamamos vida. Talvez na arca de Noé não coubessem todos os animais e plantas da fauna e flora, mas sim as sementes e a informação genética que deveriam salvar as distintas espécies do dilúvio.

Talvez o pequeno não seja tão insignificante… 

http://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0/deed.es

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