Criação de Pupila d´água- Revista Lazarillo

Artigo de Carlos Laredo para a revista espanhola “Lazarillo”. O artigo fala da gênesis do primeiro espetáculo da companhia “Pupila d´água” e da relação do público adulto com o teatro para a primeira infância.

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Olhando pelo retrovisor do tempo, eu me pergunto sobre o contexto que deu inicio ou que nos estimulou a fazer Teatro para a Primeira Infância. Como muitos adultos, eu teria assinado embaixo ou afirmado há anos o que em geral muitas pessoas apontam hoje, o que se dita de forma oficial ou o que se transmite pela corrente popular assimilada de antemão. Sabemos que para qualquer assunto encontraremos opiniões para todos os gostos e cores, mas podemos destacar que o que fomos percebendo no nosso trabalho sobre a opinião que desperta a primeira infância está ancorada em um aparente consenso coletivo.

Através de um pequeníssimo mostruário de frases, recolhido diariamente ao longo de 11 anos, antes de que cada apresentação, pudemos observar opiniões, que sem ter vocação estatística ou científica, nos aproximam talvez a entender o porquê não se tinha pensado a Arte para a Primeira Infância até bem pouco tempo atrás. Estas frases, incluídas aqui por seu caráter repetitivo e tomadas em distintos países e contextos sociais, com pessoas de diferentes idades, meios culturais, educativos e econômicos, ilustram de um modo superficial a idéia generalizada que se têm sobre os bebês. Elas refletem o modelo social em que vivemos. Seria necessário lê-las com veemência, como se fossem verdades peremptórias, indiscutíveis, evidentes e básicas , pela forma e tom assertivos que estas afirmações são expressadas, sobre o que pensamos quando falamos de bebês.

Assim nós as escutamos:

– “Mas o que se pode fazer com um bebê, se os nenens não entendem nada ?”,

– “Bom, na verdade, o que eles têm é apenas uma percepção sensorial do mundo que os rodeia.”,

– “O que vocês fazem? Ruidinhos e luzes coloridas ou coisas assim?”

– “Está claro que os bebês não podem entender nada como um adulto sim entende! ”,

– “ Bom, a nível sensorial tudo bem, mas o resto…”

– “Nascem como uma página em branco, e logo vão aprendendo a falar, a caminhar, a pensar, etc; depois vão aprendendo tudo, mas quando nascem não sabem nada. Não vejo o que se pode fazer com eles. Não consigo imaginar nada mais além do gugu dadá…”;

– “Um bebê não sabe falar, então o que ele vai entender? Não pode entender o que entende um adulto.

– “…a um bebê não se pode mostrar nada dramático porque poderiam se traumatizar”,

– “… são pedaços de carne com olhos, uns animaizinhos. Até que começam a falar e são capazes de raciocinar, de argumentar, claro.”;

– “Bom, os outros, eu não sei. O meu, o único que faz é chorar, comer, fazer cocô e dormir.”

– “Gente, um bebê não é capaz de pensar por si mesmo”;

– “ Está claro que os bebês aprendem por imitação dos adultos, porque não sabem nada, aprendem a falar imitando seus pais, seus avôs, ou o que escutam na rua…”.

Ou frases que pelo contrário definem o modo de ser, caráter e a conduta das crianças de menos de 3 anos de forma indiscutível (ditas muitas vezes e sem limite pelas mesmas pessoas que negam qualquer capacidade do ser humano quando nasce):

– “É que meu filho (de 9 meses) é impossível”,

– “Não é capaz de estar quieto”,

– “Não é capaz de se concentrar em nada”,

– “É muito bobinho”,

– “Atento? Sem fazer nada por 30 minutos? Eu o conheço e te digo que é impossível!”,

– “Não acredito que se comporte bem!

Muitas pessoas afirmam sem parar para pensar no que significam realmente estas frases, no que transcendem e em que medida bloqueiam o potencial de desenvolvimento da sociedade. Outras, simplesmente não concordam em absoluto com elas. Mas o debate não se abre no seio da sociedade a nenhum nível, porque talvez se o fizéssemos seriamente, com o conhecimento científico que temos hoje à mão, poderíamos colocar em perigo todo o modelo econômico, educativo, social e cultural que construímos. Seria necessário revisá-lo todo. Essa desconfiança que se semeia na primeira infância recolhe seus frutos na adolescência, e perpetua muitas âncoras sociais pesadas, difíceis de se desvencilhar.

Assim, aparece também a definição no dicionário da Real Academia Espanhola (RAE), quando propõe que o uso da razão é a “Posse natural do discernimento, que se adquire passada a primeira infância”. Contraditoriamente, o mesmo grupo social que afirma, legisla e projeta nesta direção marcada pela desconfiança das futuras gerações, se ufana de ser a sociedade mais avançada e evoluída da Historia da Humanidade.

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Mas, voltemos ao pequeno espelho retrovisor. Antes de fazer, tive a oportunidade de programar e antes de programar, tive a oportunidade de ver, e pouco antes tive a oportunidade de descobrir. Neste instante inicial, neste instante zero, houve um momento de amor indescritível, de ruptura com os moldes e as certezas. Foi um momento de visão lúcida das infinitas possibilidades que se ofereciam em uma só. Eu estava sentado, vendo um espetáculo na França para crianças menores de 3 anos. Era L´air de l´eau da companhia Théâtre Athénor com Brigitte Lallier e Laurent Dupont em cena: um dos espetáculos pioneiros deste gênero no mundo. Naquele momento, senti que vários pilares inalcançáveis da poética teatral podiam se encontrar por causa dos espectadores. Me arrepiei e três lágrimas caíram sobre o papel que tinha na mão. Fiquei sem palavras! A arte era possível porque os recém-nascidos a faziam possível!

Se o zero foi este momento de descobrimento de algo latente, para ver que era possível abrir um novo território de exploração, o Um poderíamos dizer que foi Pupila d´água, e depois A Geometria dos Sonhos, O Circo Incierto, Desenhando Labirintos, Anda, Na ponta de língua, Si tú no hubieras nascido, Quien era yo antes de ser yo, Café Frágil e todos os espetáculos que ainda esperam para ser colocados em pé…

Pois bem, justo depois de descobrir o Teatro para bebês, eu me empenhei em compartilhar minha fascinação com os que faziam Teatro para Crianças. Pensei que se estavam próximos à infância, poderiam entendê-lo melhor. Não percebia o grande erro que estava cometendo. Contava a companhias, empresários, distribuidores, produtores, programadores e outros “ores” de todos os lados deste país. E aos poucos artistas que fui conhecendo. Meu entusiasmo era proporcional à indiferença que gerava meu discurso: quanto mais entusiasmo, mais indiferença. Contava a amigos e pessoas próximas como um apaixonado que crê que todos estão como ele. Pus a disposição os meios, propondo colaborações ou co- produções a todos aqueles que me pareciam poder criar para bebês, com toda a infra-estrutura do poderoso festival que dirigia então: Teatralia. E nada! Fracassei fragorosamente. Zero. Talvez não tenha sabido explicar- lhes, talvez não tenha podido transmitir… Era tão evidente! E não consegui tocar a ninguém. Em três anos, não consegui que nenhuma só companhia espanhola de Artes cênicas, plásticas ou musicais quisesse se aventurar a criar para bebês.

Entretanto, eu seguia cada vez mais apaixonado que nunca por aquela impossibilidade. Por muita terra e água que pusesse à disposição, ninguém tinha as sementes, e o que é pior, ninguém parecia querer tê-las. Os argumentos que meus colegas me davam para dizer que não, mostrando resistências e medos, eram tão educados como reiterativos. Todos nadavam nas águas básicas da sobrevivência. Não era tentador nem como disparate artístico. Me diziam que com uma lotação tão limitada não se podia trabalhar, que nunca se chegaria nunca a cobrir os gastos, que não havia circuito para difundir o trabalho, que os programadores não o entenderiam ou que nunca sobreviveria… Que se faria em Teatralia e ponto. Atrás destas justificativas, respirávamos o mesmo ar de incredulidade com o que costumam chegar os adultos a ver os espetáculos para bebês. Pensavam de uma maneira mais ou menos acentuada o mesmo que os espectadores, que antes descrevia com suas frases, perguntas capciosas ou sentencias difamatórias.

Assim, conformei- me durante um tempo em fazer experimentos com artistas que não tinham feito nada para bebês, e que não o tinham concebido como tal para a primeira infância. Aceitaram o desafio e me agarrei às intuições. Vi que funcionavam, que poderia apresentar o trabalho de diferentes artistas a bebês e serem eles que ficasse arrepiados e com a alma tocada. Foi o caso do músico Pedro Esteban ou dos músicos de Jazz que fui buscando por Madri, para citar alguns exemplos iniciais. Recuperaram o gosto por interpretar porque seu auditório do café de jazz para crianças ou os de Pedro Estevan, estavam compostos por um especial viveiro de ouvintes: os bebês (recomendo a leitura dos textos da neuróloga Sandra Trehub no estudo da incidência da música nos bebês para entender de que falo). O público os escutava! Assim, segui programando espetáculos que vinham principalmente da França e de outros países com menos medo de provar algo novo.

E chegou o ano 2001, com a criação da companhia La Casa Incierta, com o trabalho com os artistas Azufre e Cristo, e logo com a incorporação da atriz que encarnou o espírito de todos os trabalhos para a primeira infância que realizamos até agora, a que me levou a ser menos gestor e mais “gestador”, a que descobriu que a linguagem da comunicação com os bebês está feita de muitas mais coisas que de códigos binários compostos de zeros e uns, a que se deixou atravessar pela maternidade e com o fio que descobre as capas infinitas da primeira infância, a que soube definitivamente traduzir a experiência diária em cima do palco e transformá-la em desafios permanentes, que nos levaram cada vez mais longe para estar cada vez mais perto dos recém-nascidos. Falo de Clarice, de Clarice Cardell.

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Logo, nasceu nossa filha Gabriela. Gabriela foi, com seu nascimento, a que nos empurrou a criar Pupila d´água. E é que a Humanidade não criou nada tão impressionante como a gestação e o nascimento de um ser humano. Nunca! É um mistério que funda mitologias, religiões (seja de teosofias matriarcais ou patriarcais), grande parte do estudo da Ciência ou da Filosofia, e dos cultos pagãos que fundam a Arte. O culto do mistério do nascimento do ser humano é o epicentro de qualquer Cultura e marca, como uma cara da mesma moeda, o culto da morte.

Em Pupila d´água se sintetiza de maneira sutil o que Irina Kouberskaya nos ajudou a potencializar e desenvolver desde o primeiro momento, junto à atriz e cantora Fernanda Cabral. Fernanda soube criar, aninhar e acompanhar todos os elementos essenciais da obra. E principalmente, graças à sua experiência em várias disciplinas da arte, soube “traduzir” a expressividade dramática na passagem de uma linguagem a outra. Constatamos que nesta obra estão as sementes de todas as que fizemos depois. Antes de começar a ensaiar, partimos sempre da premissa de não saber o que é um tenro infante, e é por esse motivo que durante 10 anos, sempre estivemos visitando de forma permanente crianças de 0 a 3 anos em creches.

As “verdades”, que havíamos escutado (inclusive no seio das próprias creches) ou lido em livros de psicologia ou de psicoanálise em relação à infância, foram sendo derrubadas como castelos de areia quando sobe a maré. Pupila d´água bebia das linguagem transfiguradas, onde dizíamos o mesmo, mas de modo diferente, seja com palavras, com língua de signos, com dança ou com linguagem de objetos. Com Pupila, descobrimos que o espaço de comunicação tem um elemento essencial que é a água. A água que portamos nos corpos e a água que em forma de vapor umedece todo o ar, por mais seco que esteja.

Poderíamos dizer muitas coisas sobre a água, porque tem uma importância essencial, se queremos levar um pouco mais além as fronteiras do nosso entendimento. Água, porque somos um percentual muito alto de água, e não importa se falo do bebê ou do adulto. Não em vão, o ser humano se gesta no líquido amniótico que não é outra coisa que água, urina e algumas proteínas. Água com uma alta concentração salina, como o mar. Se ao lançar uma pedra na água, podemos ver as ondas que se transmitem concentricamente, e ou que se deslocam como uma espiral helicoidal ( como os tubos dos surfistas), nos parecerá fácil entender que a vibração de um violoncelo ou de uma percussão possam fazer vibrar a água que porta um bebê por todo o corpo, com formas geométricas, tão harmônicas ou melódicas como a vibração da água ou como a da música.

Concedemos à musica muitas vezes a qualidade de não ter que passar necessariamente pelo crivo do entendimento. Como se as palavras não fizessem vibrar o ar e a água em virtude de sua intensidade, volume e intenção. Como se além do entendimento não fosse a exaltação da água do corpo, a que nos permite expressar as emoções através das lágrimas que produz o pranto ou do ar prenhado de água que porta o riso. Como se a estrutura molecular da água não variasse em função da energia que recebe. Como se não variasse em virtude dos fótons que vêm que sol.

E é que o diálogo secreto entre as atrizes e o bebês em Pupila d´água é tão ritual como a hora do banho diário, onde a felicidade extrema e o amor multiplicado se encontram. A hora mítica ou mitológica, como a estrutura arquetípica que os bebês portam em sua memória genética e na arquitetura de seu funcionamento evolutivo. Não paramos para nos questionar o que o bebê no momento do banho entende para ser feliz…

O que necessitamos entender da água, das pedras, do fogo ou da luz e do ar, se nos reconhecemos feitos desta mesma matéria? Poderia me estender longamente para tratar de expor a profundidade, complexidade e potencial que o ser humano tem ao nascer, mas não seria mais interessante saber o que acontece no mundo vasto e infinito que desconhecemos? Não é a aventura ao desconhecido que garante que o artista não está se copiando a si mesmo ou a outros? Se o que acontece não o desconhecemos, então que interesse poderá haver em descobrir algo novo, algo que inclusive não poderíamos chegar a entender?

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Hoje, quando olho no retrovisor destorcido pela equação do espaço e tempo, fizemos como companhia mais de 1500 apresentações nos últimos 10 anos, e o Teatro para Bebês nos deu para viver e para pagar todas as contas. Todos os vaticínios de nossos colegas não só não se cumpriram, como se baseavam em suposições e cálculos equivocados. Igual que erradas são ao frases dos indivíduos que colocamos ao princípio, e que escutávamos antes das apresentações. Ao acabar as apresentações, os mesmos adultos que diziam estas coisas, ficam sem palavras, perplexos como seus bebês estavam absortos ou entregues. E os filhos desmontam em menos de 40 minutos, toda a bateria de preconceitos com que eram julgados previamente por seus pais ou por seus educadores.

Amanhã de tarde, o espetáculo, que segue mais vivo que nunca, será montado e apresentado duas vezes mais. E já são 563 vezes que o fazemos, e voltamos a fazê- lo como se fosse a primeira vez. A peça se difundiu em países como Espanha, França, Martinica, Holanda, Alemanha, Itália, Portugal, Bélgica, Russia e Brasil. O poema de Pupila não ocupa mais que uma folha. Mas hoje como ontem, seguimos descobrindo novos matizes e formas de vê-lo e interpretá-lo. Os bebês nos ajudam a ver que cada instante é infinito, tal e como o demonstram os físicos quando nos comprovaram matematicamente que o infinitamente macroscópico está contido pelo infinitamente microscópico. Talvez porque, da mesma forma que os bebês, o poema de Pupila d´água está pensado com números irracionais, números com infinitos decimais, entrelaçados de geometrias que vão de um lado ao outro em dois hemisférios do cérebro. O bebê utiliza todo seu cérebro com mais velocidade e criando muito mais sinapses novas que o adulto que o acompanha. Trançará e tensará os dois hemisférios do cérebro para viajar até o que desconhece, até os limites de todas suas fronteiras, que são todas de seus antepassados, e irá além de sua evolução, para se aproximar do entendimento profundo da matéria e viajar, inexoravelmente até a casa incerta que surge no horizonte e que nunca chegará a ser alcançada totalmente… por muito que nos aproximemos.

Carlos Laredo. Valdemorillo 25 de fevereiro de 2011.

http://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0/deed.es

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