Arte e primeira infância- Revista francesa Le Furet

Artigo de Carlos Laredo para a revista francesa “Le Furet”. O artigo fala de temas como a arte, a primeira infância, o teatro e nossa sociedade atual.

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Esclarecimento de porque canto

(F. G. Lorca: Fragmento extraído da Conferência sobre as canções de ninar, falando da capacidade poética dos recém nascidos)

Neste tipo de canção, a criança reconhece o personagem e, segundo sua experiência visual, que sempre é mais do que supomos, perfila sua figura. Está obrigado a ser um espectador e um criador ao mesmo tempo, e que criador maravilhoso! Um criador que possui um sentido poético de primeira ordem. Não temos mais que estudar seus primeiros jogos, antes de que se turbe de inteligência, para observar que beleza planetária os anima, que simplicidade perfeita e que misteriosas relações descobrem entre coisas e objetos, que Minerva não poderá nunca descifrar. Com um botão, um carretel de linha, uma pena e os cinco dedos de sua mão, a criança constrói um mundo difícil cruzado de ressonâncias inéditas, que cantam e se entrechocam de turvadora maneira, com a alegria daqueles que não devem ser analisados. Muito mais do que pensamos, compreende a criança. Está dentro de um mundo poético inacessível, onde nem a bisbilhoteira imaginação, nem a fantasia tem entrada; planície com os centros nervosos do ar, de horror e beleza aguda, onde um cavalo branquíssimo, metade de níquel, metade de fumaça, cai ferido de repente com um enxame de abelhas cravadas de furiosa maneira sobre seus olhos. Muito longe de nós, a criança possui íntegra a fé criadora e não tem ainda a semente da razão destrutora. É inocente e, portanto, sábia. Compreende, melhor que nós, a chave inefável da substância poética.

Federico García Lorca. 1928

Bebês nascem poetas

Breves notas sobre La casa incierta

Há mais de dez anos que La Casa Incierta começou seu caminho como companhia estável de teatro. Foi fundada no ano 2000 pelo diretor de teatro Carlos Laredo e a atriz Clarice Cardell. Entretanto, seus caminhos profissionais já tinham começado nas artes cênicas há mais de 20 anos. Neste tempo, o trabalho fundamental do grupo tem sido o de desenvolver uma linguagem cênica, vinculada ao público da primeira infância e das pessoas adultas que os acompanham. A companhia realizou uma dezena de obras e mais de 1700 apresentações na Europa, Russia e Brasil. La Casa Incierta é hoje companhia residente no Centro de Arte Teatro Fernán Gomez de Madri, onde também programa há 8 anos um ciclo estável de espetáculos internacionais para bebês: o Ciclo “Rompiendo el Cascarón”. Paralelamente, e em colaboração com o grupo de teatro brasileiro Sobrevento, vem desenvolvendo um trabalho pioneiro na difusão deste tipo de teatro no Brasil. Um pilar fundamental deste trabalho tem sido os workshops de artes cênicas para adultos e bebês, direcionados a profissionais da primeira infância, a artistas ou pais, entre os que se destaca o projeto Grundtvig 2010-2012 e o projeto de formação para educadores da Rede de Escolas Infantis da Prefeitura de Madri em 2005, 2007 e 2009.

Em meio às margens limitadas nas quais se move um recém-nascido, enquadra-se o modelo de sua existência social. Existência que agoniza entre os números inteiros das medidas dadas antes de nascer. Olhamos os bebês como se fossem pequenos, como se fossem menores, como se fossem inferiores, como se acabassem de chegar… e não soubessem nada. Como alguém que não é e que algum dia será: uma promessa. Nós os emolduramos com tachinhas em um papel cheio de verdades. E não nos assusta desconhecê-los. Limpamos suas memórias antigas com água sanitária e escova. Sabemos que não sabem, porque não sabem nada que não saibamos. E seu umbigo é um tapume selado. Não queremos que olhem pelo buraco da fechadura ou que se ponham nas pontas do pé para ver as margens que nos desorientam. É melhor que estejam aí dormidinhos, sem incomodar. É aí quando podemos por lápides de mármore sobre seus sonhos. Rezamos todas nossas razões desenraizadas. Uma atrás da outra, preparando-lhes para o molde. E não baixamos a voz quando não deveriam escutar nossas “adultezes”. Gritamos nos momentos de sussurro, quando amanhece o galo e é hora de se posar levemente na terra. Nessa hora serena da passagem do peito à papinha, quando o bebê já não pode mamar e cantar ao mesmo tempo, quando o anjo deseja dar seus últimos vôos, quando ainda não pode respirar o ar das pedras, os arremessamos à terra cortando sua respiração, espetando seus bumbuns com as agulhas do tempo. E os empurramos para que cheguem antes à missa de seu enterro. E se choram, dizemos “ quer colo” como se quisessem nos chantagear com seus afetos, com seus defeitos. E queremos que as raízes de seus pés cresçam antes de poder andar, antes de poder falar. E lhes transmitimos todos nossos medos, todas nossas apreensões, antes de que possam recordar o grito infinito do herói. E acreditamos que não entendem nada, que nossos dramas são mais dramas que seus dramas, que nossos problemas são mais importantes que os seus, e que seus rabiscos em espiral não são mais que uma bagunça inteligível, traçado primitivo e animal do sem sentido, desse balbucio incivilizado. E lhes damos a “mal-vinda” a uma civilização que domestica a seus alunos em moldes de alcatrão e balinhas, para lhes fazer entrar rápido pelo umbral fajuto do portal da “ Educação do futuro”. E não lhes contamos que a educação é um simulacro falso e enganoso da vida. E os arrancamos de suas mães para lhes tapar a boca com chupetas de sabão. E suas mães arrancadas por seus trabalhos os abandonam desgarradas com suas mães de adoção, sem que se modere outro rito que o da resignação.

Emparedamos as normas como mandamentos que começam por não ou sequestramos o “não” para transpassar às crianças a função autoritária, que tanto exerceram os poderes a partir dos anos 30 do século passado, enquanto os simulacros autênticos esperam fora das escolas, tratando de romper os muros da insensibilidade.

Há muito tempo, o Teatro foi exilado de todos os sistemas educativos. Alguns lhe deixaram um lugar marginal fora do horário escolar ou como atividade de fim de curso, quase como uma benévola caridade. Nunca como ferramenta para aprender tudo, para dramatizar tudo. E suas irmãs: a música, a pintura, o canto, etc…; todas as filhas da arte foram abandonadas fora das cercas do colégio ou as deixamos castigadas no pátio do recreio. O Teatro é muito perigoso para o poder, que teve que excluí-lo das universidades para cortar as revoltas estudantis, mas o segue utilizando recorrentemente, a cada 4 anos, em sua forma de “monólogo comício político” para ganhar votos e vencer vontades. Uma vez que o Teatro se exilou da escola como tal, também o fez como ferramenta de experimentação e aprendizagem do resto das matérias e, certamente como um rito de mimesis e catarsis e como forma lúdica de resolução dos dramas na convivência do grupo escolar.

Assim, estamos chegando pouco a pouco a culminar a obra neuronal proposta por Eurípedes e Sófocles há mais de 2.400 anos, que de acordo com Nietzsche no livro a Origem da Tragédia, foram os que transformaram o coro em público, o rito em espetáculo, dando passagem às primeiras vitórias da razão sobre a fé criadora. Assim o público começou a não viver os dramas do herói trágico como próprios, e sim como alheios, e não se sentindo mais responsável em absoluto do destino de seu herói, deixou de se sentir responsável pelo próprio. Sófocles venceu a Ésquilo, dando passagem à ficção para dar morte lenta à ritualização.

A busca ineludível da verdade científica não é o objeto de minha observações. Ver e observar como se comportam adultos com bebês e crianças no Teatro é hoje uma mostra desta tragédia do Teatro, desta situação crítica do teatro como rito social. As sementes que semearam os guardiães do modelo patriarcal deram seus frutos. O contraste entre a fragilidade dos bebês e a dureza do adulto que o acompanha é notável. Um caminha na ponta dos pés, como os olhos dispostos a devorar tudo, com a emoção à flor da pele. Frágil como uma manhã sem pele. Não necessita fazer esforços de concentração porque está dentro do evento, dentro do drama. Seu corpo é menor, mas vibra com maior ressonância, com frequências mais altas e mais baixas que a do adulto, cheias de matizes. Participa no ato teatral com todo seu corpo, como toda sua alma. No instante preciso que está vivendo. E o intérprete se sente acompanhado. Quando o bebê contempla uma obra de arte, está criando- a, sua visão é tempo, não é o relato do tempo, mas o tempo em si mesmo. Se um bebê vê pintar, sua atividade neuronal é a mesma que se pintasse com pincéis. Se um bebê vê dançar, sua atividade neuronal é a mesma que quando baila. É neste sentido precisamente que o teatro para bebês tem que aportar algo crucial para o desenvolvimento da Cultura e da Humanidade. Se Medéia sacrificou seus dois filhos para tentar salvar a Humanidade de ser filhos nascidos com armas, e não conseguiu vencer o modelo da violência hereditária, cabe pensar que poderia existir uma possibilidade de tecer novos fios invisíveis, que protejam a capacidade poética das pessoas, modificando sua responsabilidade estética de espectador, que deixa de estar espectante, para lançar suas mãos em coro à ciranda que abraça e protege no centro o poeta, o artista.

Lorca o anunciou em sua obra mestra “El público”, que será sem dúvida uma obra entendida e aplaudida no futuro, quando as pitonisas da razão leiam as mãos dos bebês e deixem de roubar nossa capacidade de criação poética nas casas e nas escolas. Os bebês são a oportunidade que o coro têm de voltar a ser o público, a ser profunda e ativamente responsável pelo desenlace da Tragédia ou da Comédia da Sociedade. E a liberar a Humanidade das ataduras do que conhecemos para nos aventurar decididamente até o território fértil e incerto do desconhecido.

Carlos Laredo

Notas aparte (fora do artigo):

Nos últimos anos, sempre que trato de descrever o trabalho que fazemos, tento fazê-lo expondo, argumentando e defendendo as capacidades com as que nasce o ser humano. Aportei estudos realizados nos campos científico e estético e uma vasta descrição de nossas experiências, que puseram em evidência os preconceitos que sem fundamentos, se baseiam sobre a suposta incapacidade intelectual e poética dos espectadores bebês ou da primeira infância. Pudemos observar em inumeráveis ocasiões que nem sequer se trata de um tema de discussão, porque se dá por certo uma série de verdades inapeláveis, indiscutíveis, mesmo que sejam tão falsas como dogmáticas. Preconceitos que encontramos inclusive na evolução semântica da linguagem, que os adultos não só utilizam quando se referem aos bebês mas também quando definem um modo de entendimento, um modo de ancorar o pensamento em uma jaula de grilhões sem fechaduras, chamada razão. Compensar a inércia, com que uma parte importante da sociedade confina a sensibilidade dos menores de 4 anos, faz parte de nosso trabalho. É um fato que muitas famílias e escolas infantis com bebês têm ainda sérias dificuldades para cumprir com uma prerrogativa constitucional no Brasil como é o direito ao acesso à Cultura. Direito pelo qual ninguém ou quase ninguém se faz responsável.

A oferta de atividades culturais quando não é completamente inexistente, segue sendo ou extremamente escassa, ou extremamente limitada e condiciona a vida do bebê e de seu entorno durante 3 ou 4 anos. Além do mais, este confinamento mascara uma visão injusta sobre o ser humano desde quando nasce, e vem determinado pelo modelo educativo, social e cultural dominante.

http://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0/deed.es

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